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Entropia




   


O corpo de Deus jaz envolto por cabos e fios elétricos
 num ninho vasto onde circula a corrente que alimenta o mundo, anjos de eletricidade com asas rasgadas de cobre e borracha. As raízes enterradas na terra contam, nos seus ínfimos anéis, histórias de passado e de futuro, o tempo é todo ele um só e corre freneticamente, eras passam como vento. Nas ruínas, vivem casas erguidas e fundidas em ouro maciço; olha para cima e, entre as fendas, hás de ver o céu de onde tudo nasce.





O objetivo é parar o carrossel alucinante do tempo, pôr o pé no travão, interromper o que tiver de ser interrompido, puxar os cabos até rasgar, dilacerar o corpo elétrico dos anjos e matar Deus. Basta de distorções, profanas ou sagradas. Basta de procurar beleza num mundo irremediavelmente imperfeito. A Deus foi dado um mundo que ele jamais poderá sustentar.


Deus nasceu do útero cósmico de sua mãe, o universo, banhado pelas chuvas de meteoros e embalado pela vibração surda das galáxias. Cresceu brincando com as estrelas, as supernovas, a criação e destruição dos planetas, o big bang. A sua mãe morria e renascia todos os dias, separava-se de si e alastrava-se pelo vazio infindável que era o além na génese do mundo. Deus crescia e o rumor da vida crescia a seu lado, formava-se no fundo do seu peito a vontade de viver junto a tudo, de ser um com o Céu, de ser o próprio Céu e, simultaneamente, o seu criador.

De presente de aniversário dos seus 9 bilhões de anos, idade precoce para quem jamais deixará de existir, foi-lhe dada a terra, planície deserta e escura, tela para ser pintada. Dormiu como uma cria abandonada debaixo do céu estrelado, procurando refúgio naquela expansão de noite que outrora habitara, cuspido para o mundo pela sua mãe indiferente.

Ao fim do terceiro dia, começou aquilo que seria a sua obra-prima, fruto de outro ventre para a sua mão, esculpido e talhado por si. E Deus aprendeu a amar a sua dádiva e deu-lhe montes e rios e vida e cor e deixou que as estrelas penduradas em tempos anteriores iluminassem o céu de noite, a sua verdadeira casa um ponto distante no vazio envolvente do cosmos.



Mas Deus está doente, respira por tubos que o ligam à grande máquina do universo, o seu sangue jorra e mancha os céus como a seiva das árvores cai sobre a terra. Deus sonha febrilmente com um mundo perfeito e age cegamente sobre a terra. Os anjos assumem a forma de grandes máquinas industriais, eixos e engrenagens rodando em ritmos perfeitos, infalíveis, como bailarinas rodopiantes sobre um só eixo.




Alimentados pela nave-mãe, cavam a terra, esburacam-na, espalham os seus cabos por cavernas subterrâneas, constroem cidades, civilizações, vida em grandes construções elétricas nas camadas inferiores do solo. Os prédios, as pontes, as ruas, as casas, são infestadas por altos postes de eletricidade que sobrevoam tudo e todos. Tudo alimenta a grande máquina, o pulmão auxiliar de Deus. Deus está faminto por vida, morto a sua criação morrerá também.




Nos recônditos da terra, no seu núcleo, o sol, criação divina esquecida, e seus raios, não chegam, a vida humana distingue-se como mera réplica do primeiro espécime divino de Deus. O Homem é um quase inseto, rasteja pelas ruas elétricas protegido por um rígido esqueleto da cor do solo. Vive inconscientemente, assombrado por uma vaga e longínqua imagem da sua vida anterior, um sonho inatingível.

Na superfície, o tempo corre caoticamente, as eras repetem-se e destroem-se simultaneamente, impérios nascem e caem, as criações de Deus jazem em pó. Os candeeiros ainda ardem, força estranha que os move à vida, a humanidade entranha-se em tudo.

Como seria voltar a pôr os pés na relva, olhar para cima e ver, mesmo ver, as estrelas, luzes fúnebres de explosões distantes do passado. Como seria a chuva, a verdadeira chuva, no seu esplendor divino, a cair sobre a pele suave e inalterada do Homem. Nenhum Homem irá alguma vez sonhar novamente, nenhum Homem será carne e osso outra vez, o fim-último é a sua destruição, destruir Deus. Escalar a nave-mãe, feita de milhares de camadas de cobre, de prata, ouro, de metais preciosos fundidos para proteger o corpo do criador, adormecido num sono eterno, embalado não pela vibração dos planetas, mas sim dos cabos elétricos que o ligam aos anjos, à terra, ao seu pequeno mundo esquecido no canto do universo. Embrenhado em placenta num útero da sua própria criação, vendo reflexos da sua mãe no mundo perfeito que julga, na sua doença, estar a criar.

E é necessário assassinar Deus e seus anjos, mensageiros vendados que são, é necessário destruir essa mesma nave-mãe, arrancar os cabos e consumir a corrente que deles escapa, ambrósia para bocas sedentas, deixar que o tempo se dissolva no vazio, o mesmo vazio que deu à luz o supremo criador.





Preso numa concha em que não existe passado nem futuro, em que existo meramente neste momento, apenas um vento passageiro, eu sou esse Deus enclausurado. Catedral de sonhos construída. O Céu está aqui, esse reino tão próximo que o consigo agarrar; para quê travar caminhos imperfeitos, ruas sem fim, levar tudo à sua conclusão lógica e inevitável pela simples satisfação de ver uma coisa boa terminar.
Sentar na borda do passeio e pensar se foi assim tão boa para começar.
Descer a mesma calçada de sempre, esquerda, esquerda, frente, direita, esquerda, frente, esquerda, direita, frente, direita, tocar à mesma campainha de sempre com o mesmo medo de ter-me enganado na porta, subir as escadas (às vezes a porta fica aberta e nem valia a pena ter tocado), ao longe ouvir o ladrar das cadelas, terceiro piso direito, campainha outra vez, um olho através do buraco da porta. Muitos dias não desejo mais do que aquilo que tenho, agradeço por não termos sido criados com os mesmos conselhos.


O Céu está aqui, tão próximo que o consigo agarrar, eventualmente. Debaixo de toda a tralha, chumbo, metal, prata, a calçada, o betão, os candeeiros, querosene, eletricidade, trilhos, o chiar das carruagens, dos carros, dos elétricos — nirvana.




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